quarta-feira, 30 de julho de 2014

Após fim do prazo para acordo sobre dívida, Argentina entra em calote

Mediador nomeado pelos EUA confirmou calote do país após reunião em NY.
País não considera que esteja em calote técnico.

Do G1, em São Paulo
Acabou, no fim desta quarta-feira (30), o prazo para a Argentina conseguir um acordo com credores que se recusaram a negociar com desconto os débitos do país. Após a reunião com fundos que não aceitam renegociar a dívida, a Argentina entra em calote, confirmou o mediador nomeado pela Justiça dos Estados Unidos. "A República da Argentina não alcançou nenhuma das condições, e, como resultado, vai estar em default (calote)", afirmou Daniel A. Pollack, em comunicado divulgado à noite.
O ministro da Economia, Axel Kicillof, que participou da reunião, se disse surpreendido pelo comunicado. "Sinceramente, desconhecia o comunicado. Peço desculpas aos trabalhadores que estavam esperando atentamente o resultado dessas negociações", afirmou, segundo reportagem do jornal argentino "La Nación". "Me vejo surpreendido ingratamente pelo comunicado, que parece escrito para favorecer uma das partes."
Ao dizer que a Argentina "não alcançou nenhuma das condições", Pollack se referiu à negociação sem sucesso com os chamados "fundos abutres".
Esse grupo é formado por uma minoria de credores que não aceitaram a renegociação da dívida do país após o calote de 2001.
Eles entraram na Justiça dos EUA, exigindo receber de forma integral o que a Argentina lhes deve.
Essa briga dura vários anos e, no último dia 26 de junho, o juiz americano Thomas Griesa bloqueou o pagamento feito pelo governo argentino da parcela da dívida para os credores que aceitaram a renegociação.
A Argentina tinha um mês, após o vencimento, no último dia 30, para quitar essa parcela.
O calote é técnico e é diferente do calote de 2001 porque o país tem o dinheiro para pagar, mas está impedido pela Justiça.
Argentina não fala em calote
Após a reunião com os fundos, em Nova York, Kicillof repetiu que o país não considera que esteja em calote técnico. "Se fosse um default, o dinheiro não estaria depositado", disse, usando um argumento utilizado pela presidente Cristina Kirchner.

O ministro, que participou da reunião, afirmou que os "abutres" não aceitaram a proposta feita pelo país. Ele reiterou que não poderia fazer uma oferta diferente da negociada com os demais credores e que pediu a suspensão da sentença que bloqueia o pagamento da parcela. Ambas as propostas já haviam sido feitas ao longo da negociação. "Os fundos querem mais e agora", lamentou Kicillof.
O mediador Pollack considera que o calote não é uma condição técnica, já que afeta de forma real a vida das pessoas e dos investidores.
"Apesar de argumentos contrários, default não é uma condição meramente técnica, mas um evento real e doloroso que machuca pessoas reais: isso inclui os cidadãos argentinos comuns, os credores que renegociaram (que não vão receber os juros) e os que não renegociaram (que não receberão o pagamento determinado pela Justiça)", escreveu.
De acordo com a imprensa local e agências de notícias, uma outra tentativa de negociação com os fundos ainda teria sido conduzida pelos bancos privados argentinos, na noite desta quarta, mas também teria terminado mal. Os bancos estariam buscando comprar os títulos da dívida em poder dos fundos para evitar o calote. "Desabou tudo", disse à Reuters uma fonte com acesso às negociações.
'Calote seletivo'
Antes do anúncio do resultado da reunião, a agência de risco Standard&Poor´s rebaixou a nota de risco da Argentina e considerou que o país já estava em calote.

O calote só afeta os US$ 539 milhões que não chegaram a ser efetivados por estarem retidos no Bank of New York Mellon (Bony), por recomendação do juiz Griesa, que julga o processo de fundos especulativos contra a Argentina pela dívida em moratória desde 2001.
Por isso é considerado um "calote seletivo" pela Standard & Poor's. Ou seja, para a agência, o país fica inadimplente apenas em uma parte de suas obrigações financeiras. A S&P afirma que a nota poderá ser revisada se o país pagar a parcela da dívida.
Próximos passos
O mediador Pollack disse estar disponível para continuar a negociação. "Não é meu papel ou intenção apontar culpas de qualquer lado. Continuarei disponível para as partes para ajudá-los a chegar a uma resolução em que os interesses de todos sejam alcançados."

"Não vamos assinar nenhum compromisso que comprometa o futuro", afirmou Kicillof nesta quarta. "Se oferecemos mais aos abutres, todo o resto pode reclamar o mesmo."
A renegociação da dívida argentina tem uma cláusula chamada Rufo (Rights Upon Future Offers), que trata de direitos sobre ofertas futuras da renegociação. Ela dá a garantia de poder exigir as mesmas condições de qualquer outra eventual oferta voluntária futura aos chamados “holdouts” – aqueles que ficaram de fora da renegociação.
Assim, se a Argentina pagar 100% da dívida a algum credor, outros podem cobrar o mesmo. Esse item do contrato, no entanto, vence no dia 31 de dezembro, o que leva a muitos analistas a acreditarem que um acordo ou iniciativa de negociação não deverão acontecer antes de 2015.
Assim, segundo eles, um novo calote agora dificilmente provocaria impactos semelhantes ao da moratória de 2001. A avaliação é de que não se trata de um problema de falta de dinheiro e que a questão tende a ser resolvida num prazo de até 6 meses, quando expira a cláusula Rufo.
É consenso, entretanto, que a combalida economia argentina seria ainda mais enfraquecida, uma vez que a fuga de dólares tenderia a crescer, a moeda a se desvalorizar, a inflação a subir e o Produto Interno Bruto (PIB) a cair.
O ministro argentino Axel Kicillof faz sinal após sair da negociação com fundos especulativos em Nova York (Foto: Stan Honda/AFP)Ministro Axel Kicillof faz sinal após sair da reunião com fundos em Nova York. (Foto: Stan Honda / AFP Photo)
 
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quarta-feira, 9 de julho de 2014

Argentina volta à final nos penais e proclama independência de Maradona

Bruno Ceccon, Luiz Ricardo Fini e William Correia São Paulo (SP)
Há 198 anos, a Argentina proclamou a independência do domínio espanhol. No mesmo 9 de julho, mas em 2014 e em terras brasileiras, o país se tornou independente de quem, na verdade, o orgulha. No estádio de Itaquera, a seleção ficou no 0 a 0 com a Holanda no tempo normal e na prorrogação e, nos pênaltis, chega pela primeira vez a uma final de Copa do Mundo desde a aposentadoria do eterno ídolo Maradona.
Em 1990, na Itália, Maradona levou o país à decisão. Nesta quarta-feira, a Argentina não precisou nem de Messi, já que o agora herdeiro da camisa 10 e da faixa de capitão não acertou quase nada em São Paulo, a não ser ao converter sua penalidade. O goleiro Romero, porém, foi suficiente, defendendo as cobranças de Vlaar e Sneijder e garantindo vitória na disputa por 4 a 2.
Durante os 120 minutos anteriores aos pênaltis, o que se viu foi um duelo tático, cheio de marcação e com pouco espaço para Messi e Robben mostrarem por que são candidatos a craque do torneio. No fim do tempo normal, contudo, Mascherano virou herói ao dar carrinho e bloquear chute de Robben na pequena área. Como também faltou eficiência nos pênaltis, cabe a Holanda disputar o terceiro lugar às 17 horas (de Brasília) no sábado, no Mané Garrincha.
No domingo, é a vez de os argentinos tentarem voltar a ser campeões mundiais a partir das 16 horas, no Maracanã. A divindade atribuída a Maradona é lembrada até hoje em canções das torcidas e explica a presença do país na final de 24 anos atrás diante da Alemanha, que celebrou seu tricampeonato. Agora, diante do mesmo adversário, cabe à seleção de Messi se vingar da frustração de Maradona na Itália.
O jogo – Argentina e Holanda escolheram estratégias diferentes para anular o astro adversário. Enquanto Louis Van Gaal ordenou a De Jong que não ficasse nunca a mais de dois metros de Messi, Alejandro Sabella cumpriu sua promessa de aproximar laterais e zagueiros para não dar espaço para as arrancadas de Robben.
Os coadjuvantes eram exemplos de obediência a esquemas táticos. Os sul-americanos tinham em Mascherano o comando da saída de bola. O volante virou terceiro zagueiro diversas vezes para soltar Zabaleta e Rojo como alas. Mesmo quando não tinha a bola, ordenava aos colegas que adiantassem a marcação e, também, valorizassem a posse, sem se desesperar.
O problema era achar espaço na frente. De Jong, se precisasse, recebia a ajuda de mais ou dois companheiros para acompanhar Messi, que não conseguia ser mais efetivo no jogo mesmo com toques de primeira para dar dinâmica à sua seleção, que não tem um meia de criação. Pelos lados, Kuyt e Blind corriam para alternar o esquema do 5-3-2 para o 3-5-2.
Os laranjas, por sua vez, tinham Robben bem anulado e Sneijder só tinha a passagem de Wijnaldum como opção, já que Van Persie se mostrava bem confortável diante da marcação adversária, não se mexendo para aparecer nas costas da zaga, como fez com perfeição ao fazer um golaço de peixinho na estreia da Copa, sobre a Espanha.
Nesse duelo tático, os times se mexiam em bloco de uma intermediária a outra, sem conseguir espaço para finalizar ou levar perigo. O primeiro perigo só veio aos 12 minutos, quando Mascherano errou saída de bola e Kuyt ajeitou para Sneijder finalizar perto do gol de Romero. Do outro lado, Romero foi parado com falta e Messi cobrou forte, nas mãos de Cillessen, aos 14.
A primeira equipe a se mexer para escapar das marcações foi a Argentina. Sabella inverteu os posicionamentos de seus dois pontas e Lavezzi começou a dar trabalho pela direita, sendo acionado diretamente por Mascherano. Forçando por ali, gerou preocupação e escanteio que Garay desviou com peixinho rente ao travessão, aos 23.
Em meio à tensão, Cillessen despertou risos holandeses dando drible humilhante em Higuaín dentro da área. Os argentinos ainda levaram um susto quando Mascherano caiu totalmente grogue no gramado e precisou de dois minutos para se recuperar completamente e continuar em campo sem gerar preocupação.
Quem também se ajustou foi a Holanda, fechando os espaços que Lavezzi tinha e contando com a eficiência de seus zagueiros para cortar os cruzamentos. Até que Demichelis foi ao ataque para dar um pontapé em Sneijder e, como escapou de cartão, Martins Indi passou a fazer o mesmo com Messi, aliviando para De Jong, recém-recuperado de lesão.
Preocupado em bater, o zagueiro holandês levou amarelo e deixou Higuaín livre na grande área. Para sua sorte, nos acréscimos do primeiro tempo, Pérez não conseguiu cruzar para o centroavante, mas Van Gaal abriu mão de seu defensor, um sério risco de expulsão, e deu mais opções ofensivas à equipe.
O time laranja voltou do intervalo com Janmaat, com gás para marcar e atacar mais. Kuyt passou a jogar na ala esquerda e Blind virou zagueiro. O esquema não mudou, mas as novas peças permitiam à Holanda marcar mais na frente e dificultar o toque de bola argentino, que já não encontrava mais Lavezzi à disposição para criar problemas pela direita.
Robben não conseguiu arrancar nem Van Persie aparecia, mas os europeus tinham o domínio do jogo por verem que a Argentina só tentava atacar forçando jogadas individuais, e até Messi era desarmado com tranquilidade. Van Gaal, então, priorizou o toque de bola, trocando o cansado De Jong por Clasie. O time laranja que só gosta de contra-ataque tabelava como queria na intermediária rival. Sem, contudo, levar real perigo.
Em meio à falta de eficiência, Messi e Sneijder passaram vergonha com suas camisas 10 às costas, isolando a bola em cobranças de falta. Já os camisas 9 não sabiam se posicionar, já que Van Persie e Higuaín só assustaram quando estavam impedidos. A teia armada pelos dois times amarrava o jogo.
Aos 36, Sabella, que chegou a discutir com Higuaín durante o segundo tempo, cansou do centroavante para apostar na movimentação de Aguero. O atacante, no entanto, só apareceu ao atrapalhar a reposição de bola de Cillessen após boa defesa em chute de Rojo. Palacio, que substituiu Pérez aos 35, também quase não foi percebido. A Argentina não conseguia assustar.
Até que, aos 45 minutos do segundo tempo, Robben teve a sua primeira chance real. A Holanda tocou a bola até Sneijder tabelar com o atacante e ajeitar de calcanhar para o camisa 11 na área, demorar a finalizar e, já de frente para Romero, parar em impressionante recuperação de Mascherano, autor de carrinho que salvou seu país na pequena área.
No início da prorrogação, Argentina apertou a saída de bola holandesa, mas Cillessen mal precisava trabalhar porque mesmo Messi não acertava quase nada sob frio e chuva em Itaquera. Do outro lado, Van Gaal abriu mão da especialidade do goleiro reserva Tim Krul para defender pênaltis e mostrou que queria definir o jogo com a bola rolando sacando o imperceptível Van Persie para apostar em Huntelaar.
Quem realmente entrou no jogo, contudo, foi Robben. Sneijder o procurava a todo momento e o astro resolveu aparecer bem, como quando driblou três rivais em curto espaço até ser desarmado por Mascherano ou em finalização de fora da área nas mãos de Romero. O cansaço argentino parecia ajudá-lo.
Sabella, por sua vez, gastou sua última substituição pensando em preencher o meio-campo com alguém mais descansado, trocando o esgotado Lavezzi por Maxi Rodriguez. O meia, contudo, virou um dos sete ou oito jogadores que ficavam atrás da linha da bola para ver o toque de bola holandês. Os sul-americanos não apostavam em nada além de contra-ataques, todos ineficientes.
Mas, em meio ao cansaço dos dois times, Palacio quase levou Sabella ao infarto. Aos nove da última etapa do jogo, o atacante, sozinho na grande área, cabeceou a bola nas mãos de Cillessen. Minutos depois, Messi acordou e deixou Maxi Rodriguez em condições de evitar os pênaltis, mas foi mais um a facilitar o trabalho do goleiro holandês.
Nas cobranças, contudo, nenhum argentino ajudou o arqueiro europeu, que viu Messi, Garay, Aguero e Maxi Rodriguez balançarem as suas redes. Do outro lado, Romero parou Vlaar e Sneijder para garantir um sul-americano em decisão de Copa pela primeira vez desde 2002, quando o Brasil foi pentacampeão.

sábado, 12 de abril de 2014

Nobel da Paz: Dom Paulo Arns me salvou da ditadura brasileira

Adolfo Perez Esquivel disse que foi preso na primeira vez por militares em São Paulo em 1975, e na segunda vez em 1981

BBC
Arquivo pessoal/BBC Brasil
Ativista argentino esteve duas vezes preso no Brasil

O ativista de direitos humanos argentino Adolfo Perez Esquivel, de 82 anos, ganhador do Prêmio Nobel da Paz em 1980, disse que foi "salvo duas vezes" por dom Paulo Evaristo Arns durante a ditadura no Brasil.
LEIA TAMBÉM: Fantasmas da ditadura ainda assombram o Brasil 50 anos após golpe militar
Em entrevista à BBC Brasil em Buenos Aires, Esquivel disse que foi preso na primeira vez por militares em São Paulo em 1975, e na segunda vez em 1981.
"Em 1975, foi muito difícil, porque eles colocaram um capuz na minha cabeça, uma gravação de gritos de pessoas sendo torturadas e levantavam um pouco o capuz somente para que eu pudesse identificar latino-americanos que eles perseguiam."
Segundo ele, os militares queriam que ele "denunciasse" outros opositores ao regime no Brasil. "Eu disse que não conhecia ninguém”.
Perez Esquivel afirmou ainda que três militares o interrogaram e não pode ver seus rostos. "Eram três interrogadores – um muito duro que dizia que iam me matar, que iam me torturar, outro que dizia que era conveniente que eu falasse e outro que queria se fazer de meu amigo, que estava ali para me ajudar", afirmou.
No dia seguinte à prisão, o então arcebispo de São Paulo dom Paulo Evaristo Arns, conseguiu tirá-lo do local. "O cardeal me salvou duas vezes", disse o Prêmio Nobel durante a entrevista realizada na sede da ONG Serviço Paz e Justiça (Serjap) que dirige na Argentina.
Segundo Esquivel, Arns reuniu outros religiosos e defensores de direitos humanos e organizou uma manifestação na porta da delegacia, que não recordou onde ficava, assim que soube da sua detenção.
"Dom Paulo, certamente, falou com autoridades do Brasil para que eu fosse liberado. Mas não sei as gestões exatas que ele fez. O que sei é que ele não perdeu tempo em organizar uma manifestação na porta da delegacia para me salvar. E me salvou", disse.
Medo
Quando perguntado se tinha sentido medo de morrer na prisão durante a ditadura no Brasil, ele respondeu: "Daquela vez sim, foi mesmo preocupante".
Ele contou que foi preso no aeroporto de Guarulhos, em São Paulo, e que estava com o advogado Mario Carvalho de Jesus, da Frente Nacional do Trabalho, e com a austríaca Hildegard Goss-Mayr, atual presidente honorária do Movimento Internacional de Reconciliação e integrante do Serpaj, que mora em Viena.
"Nós três tínhamos viajado para um encontro com dom Paulo, mas fomos presos antes. Depois sim, nos encontramos com ele, porque ele atuou para me liberar", afirmou.
O Prêmio Nobel recordou que sua prisão ocorreu no mesmo ano em que dom Paulo condenou a prisão e morte do jornalista Wladimir Herzog, assassinado no DOI-CODI, em São Paulo. "Dom Paulo convocou os religiosos contra a morte de Herzog que depois se soube foi mesmo assassinado", disse.
Esquivel foi preso em outras ocasiões no Equador e na Argentina, onde foi torturado, como recordou. "Eu sou um sobrevivente dessas tragédias que vivemos na América Latina", disse.
Anos mais tarde, em 1981, ele foi preso após criticar a anistia no Brasil.
"Eu falei na OAB do Rio de Janeiro e foram atrás de mim no aeroporto. Mas eu tinha mudado de voo para viajar com Leonardo Boff para São Paulo. Ainda assim me pegaram", disse.
Em São Paulo, quando chegava para dar uma palestra no colégio Sion, contou, onde realizaria um discurso com outros religiosos, incluindo dom Paulo Evaristo Arns, ele foi preso novamente.
"Me levaram para uma delegacia e dom Paulo reuniu várias pessoas em um protesto no local e graças a isso e a ele, novamente, me liberaram", disse.
Visita na prisão
Segundo Perez Esquivel, o então senador (Jarbas) Passarinho teria lhe visitado na prisão. "O senador Passarinho justificou porque a anistia era importante, dizendo que sem ela não seria possível construir uma democracia. E que as Forças Armadas tinham colocado ordem no caos. Discurso que achei típico de ditadores", afirmou.
E continuou: "Por esse motivo, dom Paulo costumava dizer que a democracia no Brasil só deixava passar um passarinho."
Na OAB, recordou, ele afirmou que "as Forças Armadas não podiam ser anistiadas pelos crimes da ditadura".
Na ocasião, ele já era Prêmio Nobel da Paz, que recebeu em 1980 pela defesa dos direitos humanos na América Latina. "A minha segunda prisão no Brasil foi quase uma questão diplomática", disse.
Ele considera "importante" a realização de comissões da verdade no Brasil e da integração entre os países da região na busca de informações sobre o que aconteceu no período ditatorial.
Em janeiro, Brasil, Argentina e Uruguai assinaram um acordo, no âmbito da Comunidade dos Estados Latino-americanos e Caribenhos (Celac), para compartilhar documentos sobre as ditaduras nos três países.
Esquivel ressalvou, porém, que acha que as operações conjuntas contra opositores não se limitaram aos países do Cone Sul, onde a chamada ‘operação Condor’ significou ações conjuntas dos governos na busca dos que se opunham ao regime militar e foram entregues aos outros países ou mesmo torturados nos países vizinhos.
"Eu não chamo de ‘operação Condor’, eu digo que era a internacional do terror." Segundo ele, essa operação era "um monstro com muitos tentáculos".
Ele citou alguns casos de autoridades latino-americanas mortas em outros países, como o ex-ministro da Defesa do governo do presidente socialista Salvador Allende, do Chile, Orlando Letelier, morto com uma bomba colocada em seu carro em Washington por agentes da polícia do regime de Augusto Pinochet.
Ele afirmou ainda que a prisão, em 1976, com outros dezessete bispos latino-americanos e quatro americanos, no Equador, também "fazia parte da operação Condor".
"De jeito nenhum a operação se limitou ao Cone Sul", reiterou.
Verdade
Na sua opinião, a Argentina está à frente do Brasil na investigação sobre os crimes da ditadura porque no governo do ex-presidente Raul Alfonsín, na redemocratização, a partir de 1983, os militares foram levados a julgamento.
Anos mais tarde, os governos de Alfonsín e de seu sucessor Carlos Menem, lançaram as leis de Obediência Devida e Ponto Final, definidas como anistia. As leis foram derrubadas no governo do ex-presidente Nestor Kirchner, que governou entre 2003 e 2007 e morreu em 2010.
"Talvez, a Argentina, do ponto de vista jurídico, tenha sido o país que mais avançou (nesta questão)." Perez Esquivel defendeu que os crimes da ditadura sejam investigados para que "todas as gerações saibam o que aconteceu".
"Algo importante que o brasileiro deve ter é a busca da memória. Não é apenas buscar o passado. A memória deve iluminar o presente e ser base para as gerações futuras", disse.
Ele afirmou que a anistia "significa impunidade" e "impede a construção da democracia". "No Brasil lamentavelmente até agora impera a impunidade, com essa lei de anistia", disse.
Ele cpomplementa que "para o direito internacional os crimes de lesa-humanidade jamais prescrevem". "Esperamos que eles não aconteçam nunca mais. Mas também por isso é importante saber o que aconteceu no Brasil e em toda a região, em todo o mundo", disse.












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sexta-feira, 28 de fevereiro de 2014

Brasil surpreende em 2013 com expansão de 2,3%, mas 2014 deve ser mais difícil

Brasil surpreende em 2013 com expansão de 2,3%, mas 2014 deve ser mais difícil

27/02/2014 - 11:33
Reuters
 

Por Rodrigo Viga Gaier

RIO DE JANEIRO, 27 Fev (Reuters) - A economia brasileira surpreendeu no final do ano passado ao crescer mais do que o esperado, evitando que o país entrasse em recessão técnica, mas os resultados ainda não são suficientes para uma mudança geral das expectativas de um 2014 mais fraco.
O Produto Interno Bruto (PIB) cresceu 0,7 por cento no quarto trimestre de 2013 na comparação com os três meses anteriores, com destaque para o setor de serviços e o consumo do governo e das famílias, que apresentaram expansão.
Em relação ao quarto trimestre de 2012, o avanço foi de 1,9 por cento, fechando 2013 com expansão de 2,3 por cento, informou o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) nesta quinta-feira.
Em 2012 a economia havia crescido 1,0 por cento.
A mediana de previsões de analistas consultados pela Reuters apontava para crescimento de 0,3 por cento do PIB sobre o terceiro trimestre de 2013, de 1,6 por cento sobre o quarto trimestre de 2012 e de 2,2 por cento em 2013 como um todo.
O país poderia ter entrado em recessão técnica --quando há retração por dois trimestres seguidos-- no final do ano passado porque no terceiro trimestre de 2013 o PIB havia encolhido 0,5 por cento sobre o período imediatamente anterior. A última vez que o país viveu essa situação foi no final de 2008 e início de 2009, auge da crise financeira internacional.
O resultado do trimestre passado sobre os três meses anteriores veio com a expansão do setor de serviços (0,7 por cento) e do consumo das famílias (0,7 por cento) e do governo (0,8 por cento). A Formação Bruta de Capital Fixo (FBCF) --medida de investimentos-- também mostrou resultado positivo, de 0,3 por cento.
Nesta comparação, no entanto, a agropecuária ficou estagnada e a indústria encolheu 0,2 por cento, um sinal de fraqueza que chamou a atenção dos especialistas.
"A queda da indústria deixa evidente que o que está mantendo o país com uma taxa de crescimento apenas moderada são os problemas no campo da oferta e isso deve continuar neste ano", disse o estrategista-chefe do Banco Mizuho, Luciano Rostagno, que vê expansão de 1,8 por cento do PIB em 2014.
O fim de 2013 havia surpreendido pelos fracos resultados na indústria e no varejo, que também jogaram água fria sobre as expectativas de recuperação em 2014, um ano eleitoral e que pode dificultar ainda mais a vida da presidente Dilma Rousseff, que vai tentar a reeleição.
A confiança do consumidor também iniciou o ano mostrando fraqueza. Em fevereiro, atingiu seu menor nível desde maio de 2009.
"O mercado esperava uma queda no investimento, o que não aconteceu. É possível que o aumento do investimento tenha a ver com maiores estoques. Assim, devemos ter um número mais fraco do PIB no primeiro trimestre", afirmou o economista da gestora de recursos Saga Capital Gustavo Mendonça. "O ano começou com muita incerteza."
ANO FECHADO
Em 2013 como um todo, a FBCF --medida de investimentos-- foi a boa notícia, com crescimento de 6,3 por cento sobre o ano anterior, que passou a ter participação positivo no resultado anual, de 1,3 ponto percentual. Também se destacou o setor agropecuário, com alta de 7 por cento no período, mas que tem um peso menor no PIB do que Indústria e Serviços.
O consumo do governo teve expansão de 1,9 por cento no ano passado, enquanto que o das famílias, de 2,3 por cento. Neste caso, apesar de ter respondido por 1,4 ponto percentual do PIB de 2013, foi o pior resultado desde 2003, influenciado pelos juros mais elevados e pelo câmbio.
Para 2014, os especialistas, segundo última pesquisa Focus do Banco Central, apontam que o PIB deve crescer ainda menos, apenas 1,67 por cento, expectativas que vêm se deteriorando a cada dia. No final do ano passado, elas indicavam crescimento de 2 por cento.
O IBGE informou ainda que as exportações de bens e serviços cresceram 2,5 por cento no ano passado sobre 2012, enquanto as importações de bens e serviços tiveram expansão de 8,4 por cento no período.
(Reportagem adicional de Felipe Pontes, no Rio de Janeiro, Camila Moreira, Bruno Federowski e Asher Levine, em São Paulo)

QUARTA-FEIRA, 26 DE FEVEREIRO DE 2014

Humberto Costa diz que ideias do PSDB levaram o Brasil para o buraco

Publicado em 26/02/2014 às 8:38 por  em Eleições,Notícias
Foto: Pedro França/Agência Senado
Foto: Pedro França/Agência Senado
 
Líder do PT no Senado, o pernambucano Humberto Costa (PT) tomou para si a defesa dos governos de Lula e Dilma das críticas disferidas nessa terça-feira (25) pelo presidenciável mineiro Aécio Neves (PSDB). Na tribuna da Casa, o senador petista afirmou que a oposição não é capaz de realizar as mudanças que o Brasil precisa e atacou o PSDB, afirmando que as ideias da legenda levaram o Brasil para o buraco durante o governo do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso.
“Quando vejo as propostas dos tucanos e do seu candidato a presidente da República, vejo tão somente a repetição dos mesmos princípios, das mesmas ideias que levaram o Brasil para o buraco”, afirmou Humberto. No Senado, uma solenidade marcava os 20 anos do Plano Real e exaltava a figura de FHC. Em coro, os tucanos criticaram a condução da economia pelo PT.
“Quem consegue construir a dignidade mínima obviamente cria outras necessidades que precisam ser atendidas, mas nós não vamos atender a essas necessidades com governos que não têm sensibilidade social, com governos que aprofundam desigualdades, com governos que acham que o papel do Estado é tão somente o de fazer com que as forças do mercado possam reger as leis da nossa economia”, disparou o petista.
Pernambuco
Com o discurso do legado petista em Pernambuco na ponta da língua, Humberto ainda questionou a falta de prioridade dada pelo PSDB ao Estado na época de FHC. ”O que fizeram os governos tucanos para atender e o povo do meu Estado? Não se sabe. Mas os governos Lula e Dilma fizeram Pernambuco crescer. Nós levamos uma refinaria, nós levamos um Polo Petroquímico, nós levamos dois estaleiros, nós levamos a Fiat”, listou.

sexta-feira, 21 de fevereiro de 2014

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